Eram quase uma, estava pronto para tentar dormir. Agora era a TV quem me fazia companhia, e lá no meu quarto, ou na sala, até mesmo na cozinha, já não tinha o que fazer só me restava realmente os programas noturnos. Vi alguns filmes, reality shows e tantas outras coisas que me faziam até bem. Comia também bastante, minha geladeira, tão purinha, com aperitivos saudáveis. Procurava como todas as noites pensar um pouco sobre os ocorridos em minha vida: sete mulheres e mais nenhuma, dois filhos perdidos, sem pais, sem parentes, sem ninguém. Essa era minha vida ali naquela noite que como tantas outras não consegui sequer cochilar. Já estava acostumado. Sabia da grade de cada emissora, sabia a estória de cada livro que se encontrava naquela sala, sabia até a ordem de acontecimentos em uma revista que toda semana chegava a minha porta. Eu estava realmente sábio, pelo menos neste sentido. Ah, estava farto de rotinas. Já eram duas da madrugada, saí. Nas ruas tinham mendigos com frio e uma porção de ratos roendo os lixos da esquina. Nada mais, além disso. Fui então a uma lanchonete dessas 24 horas. Sentei-me e vi uma moça do outro lado lendo um daqueles livros que estava habituado. Pensei se seria uma mera coincidência, ou se ela realmente era daquelas que, como eu, não dormia. Aquele livro que ela lia era uma espécie de auto-ajuda para quem não consegue dormir... Porque ela estaria lendo aquele livro naquela hora? Curioso, levantei-me e fui ter com ela. Conversamos durante horas. Ela me contara que deixara o marido, ou o contrário. Eu sorri e falei que sete mulheres deixaram-me e que perdi dois filhos e mais alguns parentes e que da minha raça só me restara. Ela assustada não sabia o que falar e também nada falou, sorriu simplesmente. Saímos vagando pelas ruas da cidade. Já eram três e fomos a minha casa. Ela viu minha casa, olhou nas entranhas, até gostou. Cheguei perto dela e toquei em seu rosto, a beijei. Tirei sua roupa, suas peças e fomos à varanda. Eu morava na cobertura de um grandioso edifício. E lá, estava um frio medonho. Tivemos uma noite sem rotinas, como eu queria e talvez também como ela quisesse. Logo depois ela se foi. Nunca mais ouvi falar dela, senti sua falta por uns dias e hoje lembro só de relance. Às vezes saudosista.

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